Não entendo essa gente convertida.
Toda vez que me deparo com um deles, não consigo compreender o que levou àquela pessoa, que antes era tão inteligente e vivida a acordar num dia e dizer: “Eu te aceito Jesus.” Sempre acho que a pessoa teve alguma desilusão amorosa, ou morte surpresa de algum ente estimado, e por não conseguir superar, ela simplesmente procura solução na Universal mais próxima da sua casa.
Problema de dinheiro? Problema de desemprego? Doença? O diabo então se apossou do seu coração? A Igreja TEM a solução. Quantos alcoólatras, drogados, prostituídos se curaram? E pacientes com câncer terminal que recebem a unção milagrosa e “shazam!” o tumor some num instante. Mas claro, há doenças e doenças... Se você tem AIDS, meu amigo, a culpa é sua, nem vai pedir a Deus pra te ajudar, porque você é um sem-vergonha, promíscuo que se não tivesse feito sexo, não teria essa enfermidade suja e imoral. É, porque nem chega com esse papo de camisinha... A Igreja Católica te queima na fogueira das bruxas. Onde já se viu? Usar camisinha? Quanto mais você se proteger, menos fiéis nascerão menos doenças você terá pra reclamar com Deus, logo, menos você contribuirá para disseminação da fé e da vultuosidade da riqueza clerical.
E você que é ‘gay’? Tem o pacote completo na Protestante: além de você aceitar Jesus, ele ainda faz com que você deixe de gostar de pessoas do mesmo sexo e te garante um lugarzinho ao lado de papai do céu. Show de bola.
Nenhum dos listados acima? Então você é corno. Mas aí depende, né? Se você é homem e tua mulher te deu pernada, você pode ir ao culto ou missa e pedir que Deus faça com que ela morra de câncer (só cuidado pra ela não ser mais esperta e ir ao culto das doenças, porque ela pode se livrar). Agora, se você é mulher, converse com o cônego que ele tira essa idéia maluca, de querer se separar, da sua cabeça... Onde já se viu? Só porque o pobre marido trabalhador, que cuida de você, te sustenta, deu umazinha por fora, sem culpa, que você vai se divorciar?
Pergunto-me o que será daqui uns anos da literatura barata, dos potes de sorvete e chocolate, dos filmes de mulherzinha que tantas vezes nos fazem sair de crises homéricas. Ou então daquela cervejinha depois do expediente falando mal do patrão, de futebol, do marido/esposa, do cachorro, do presidente. O que será dos adolescentes e suas merdas? Não terão história pra contar? Das mulheres e sua liberdade de se divorciar porque aquele filho da puta transou com a melhor amiga, enquanto ela estava trabalhando duro pra pagar as contas?
Será que curtiremos fossa e estresse louvando ao sangue poderoso de Cristo, cantando música gospel e comendo hóstias?
Não iremos mais ao médico, seremos apenas ungidos de amor e de energias do pastor e pronto, o osso quebrado se restaurará fundido, inclusive, com peças de titânio vinda de Jerusalém?
Talvez seja esse apocalipse o descrito na Bíblia. Toda essa patacoada, essa espalhafatosidade da fé, que é muito mais um show de horrores do que a prática da humanidade.
E agora com essa coisa de lei do retorno, que existem várias vidas, eu tenho até medo de morrer. Vai que eu volto cristã.
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